copyright © Nathalia Favaro 2018

O gesto e o vazio
Solo Sagrado de Guarapiranga, São Paulo, Brasil
Nathalia Favaro experimenta algumas formas do mundo por meio do gesto de criação, elaborando, através da cerâmica, uma arquitetura de coisas existentes articuladas no espaço. Permite que a a realidade do objeto se manifeste partindo de um outro ponto de vista, ao mesmo tempo que os apreende desde seu interior. Suas obras evidenciam o olhar para aquilo que pode, muitas vezes, ser imperceptível ou desimportante, como os galhos secos de uma árvores.
 
O gesto de reprodução, impressão, cópia e indício são marcas dos trabalhos reunidos nesta exposição, que transitam pela gravura e a pela cerâmica, transbordando as fronteiras dessas linguagens em obras que ora estão na bidimensionalidade ora na tridimensionalidade. 
O observador poderá experimentar o espaço através dos vazios que são modelados pelos gestos da artista, que revelam as intenções da matéria que constitui as esculturas. É um convite para articular olhares entre superfícies e tensões sensíveis, que vão desde cores impressas que refletem nas retinas até o vazio entre as massas de argila. 
Tais obras apontam para um exercício de percepção, uma vez que o olhar humano é condicionado a um ponto de vista. Há que se purificar o campo da experiência, neutralizando os pressupostos para desenvolver outros sentidos. O vazio, então, abre então inúmeros campos de assimilação. Apreender as formas comuns como reservatórios da pureza, o grau zero, a essência. O pensamento puro que contempla a forma pura.
Fundação Mokiti Okada
Como falar com as árvores
Galeria Z42, Rio de Janeiro, 2019
Humanos, não humanos, eu e você, estamos conectados para sempre através dos ventos, das águas e de outras pequenas partículas e microrganismos que operam silenciosamente na paisagem e moldam o mundo. As árvores, majestosamente, regem essa afinada orquestra de entidades vivas e não vivas. São elas as grandes protagonistas da relação entre a biosfera e a atmosfera, estando fundamentalmente ligadas 'a existência de toda a vida no planeta.
Conceber a natureza e o nosso lugar no seu interior como parte constituinte do todo é uma questão eminentemente social e existencial. A crise ambiental e a frequência com que vivenciamos as catástrofes naturais exigem uma outra lógica de conceber, atuar e projetar o mundo. Um projeto de construção social baseado no que Bruno Latour chama de "multiplicação de híbridos", com uma projeção de uma política ecológica igualitária entre humanos e não humanos.
Coexistir, interagir e trocar energia com os seres e com os fenômenos da natureza foram os pontos de partida para o desenvolvimento de trabalhos artísticos aqui apresentados. É a presença do corpo do artista, afetado pela temporalidade e espacialidade da Floresta Amazônica, que é transcrita em um conjunto de processos, matérias e técnicas poéticas, derivadas da participação no programa de imersão artística LABVERDE.
Compreender a linguagem dos organismos, contar suas histórias, é usar a alma para capturar os sinais imperceptíveis aos sentidos. A natureza passa, então a ser interpretada sob a ótica dos seres em um exercício de imaginação empática. Aqui, neste pequeno cosmos da galeria, pessoas são árvores e árvores são peixes, peixes são aves e aves são folhas, folhas são matérias e a ausência delas, tudo faz parte do todo, tudo se dobra em si mesmo em uma teia infinita de encontros. 
Da vontade transgressora de descolonizar a natureza nasce um fio invisível que conecta um grupo de artistas de diferentes partes do mundo. Artistas conscientes de que as árvores sobrevivem muito além de nós, que são testemunhas ocultas das transformações antropogênicas no planeta e que, possivelmente, estarão aqui quando nós já não estivermos. Enquanto ainda há tempo, vamos ouvir, falar e coexistir com as árvores. 
Lilian Fraiji
Mostra Derivações
Ateliê Alê, São Paulo, 2016
Artistas participantes: Angela Quino, Isabel Villalba, Ivanise de Carlo, Roberto Barbosa, Melina Furquim, Nathalia Favaro, Tamara Andrade e Thais Guglielme
 
O Grupo Peabirú, composto por 'artistas que caminham' e 'caminhantes que trabalham com arte' nasceu de encontros e imersões coordenados pela artista e educadora Edith Derdyk, dentro da plataforma 'Bagagem: caminhada como prática poética'. Desde fevereiro de 2016 o grupo se encontra regularmente, desenvolvendo projetos pessoais e coletivos, investigando territórios e mapeamentos, envolvendo pesquisas, estudos e práticas artísticas.
A mostra DERIVAÇOES é a primeira 'cartografia dos atravessamentos' decorrente destas experiências, a partir de enunciados que foram sendo propostos no decorrer deste ano de forma horizontal e plural e, aprofundados de forma vertical e singular. Cada artista, aqui, nos oferece um universo de 'pensamentos possíveis', desenvolvidos sobre o ato de caminhar - num arco extenso de possibilidades simbólicas e formais - abrindo chaves para que novas e outras paisagens se instaurem para futuras trilhas, veredas, atalhos e rotas.
 
Edith Derdyk