Para seguir sem olhar pra trás

Abre Alas#16 

Galeria A Gentil Carioca, Rio de Janeiro, Brasil

15.02.2020

Que a destruição comece,

e que seja de dentro,

que ela venha com a percepção dos olhos,

como algo que nunca foi visto.


De onde podemos ver, arrancar e perceber e assimilar? Mais do que convidar, mais do que aceitar, mais do que admitir, mais que se redimir, mais que saber do privilégio, mais do que citar paridades. Fazer parte ao perceber a ignorância. O que não se pode ver, saber e negar? Que os corpos são múltiplos e múltipla é a inteligência.
Que o que é coletivo pode ser estrutural e o que é estrutural pode ser refeito por dentro e por fora. E quem está dentro?
Aqui dentro artistas, fazendo sua arte para nós, o público. Que seja assim, que as categorias sejam das inteligências, das linguagens, das vistas de perto.
Uma exposição. É para ser levada a sério, é para ser vista muitas vezes, é para contar para todas as pessoas, é para star com todas as pessoas, é para perceber que tem alguma coisa ali que não tinha antes. É só para ser arte.

E cada nome deve ser dito em voz alta: 

André Niemeyer

Andréa Hygino

Darks Miranda

Fátima Aguiar

Gilson Andrade

Juliana dos Santos

Leka Mendes

m. morani

max víllà morais

Nathalia Favaro

Reitchel Komch

Val Souza

Yan Copelli

Comissão de frente:

Keyna Eleison, Pablo León de La Barra e Yuhri Cruz

Meios e processos de criação

Orientação Katia Slvany

Fábrica de Arte Marcos Amaro, Itu, São Paulo

2019

Para Henri Matisse (186901954) nunca foi fácil pintar. Em seu processo criativo, ele refazia inúmeras vezes suas telas na tentativa de chegar àquela que ele chamava de "pintura real". Assim nasceram várias de suas importantes obras, como Natureza-Morta com compota (1899). Já Pablo Picasso (1881-1973) gostava de experimentar o desenho da forma mais realista possível para, a partir dele, simplificar seus traços, como vemos na célebre Bull (1945), em que o mestre cubista destrói em trípticos três espécies de touros em finos traços. Esses dois exemplos reforçam a ideia de que o processo de criação não é apenas um meio para se chegar onde queremos, mas também uma dimensão da arte de cada um, tão importante quanto o trabalho terminado. Tal caminho a ser percorrido foi a proposta do curso Meios e Processos de Criação, ministrado pela artista e professora Katia Salvany, na Fabrica de Arte Marcos Amaro, e que dá origem à coletiva homônima em cartaz na instituição.

A trajetória dos 19 artistas que compõe a exposição na FAMA cruzou-se neste mesmo museu, em Itu, e desdobrou-se ao longo de oito encontros, dando origem a trabalhos inéditos. Em comum, tais criativos são paulistas, nascidos nas cidades do interior ou mesmo na própria capital, e trazem como referência suas percepções do mundo que os rodeia. São eles Alexandre Arthur Silveira (Campinas), Roberto Sampaio - Dagô, Eliete Della Violla (Sorocaba), Fabio Florentino (Iperó), GIlberto Gomes - Gil (Sorocaba), Ilana Wajcber (São Paulo), Isabela Tozini - Bella (Cabreúva), Isis Gasparini (São Paulo), Larissa Camnev (Campinas), Lídice Salgot (Piracicaba), Luhly Abreu (Itú), Malu Pessoa Loeb (São Paulo), Marília Scarabello (Jundiaí), Nathalia Favaro (São Paulo), Raffa Gomes (São Paulo), Silvana Sarti (Sorocaba), Stenio Oliveira (Campinas) , Tangerina Bruno (Porto Ferreira) e Thatiana Cardoso (São Bernardo do Campo).

Se nos processos esses artistas tiveram grande troca, nos suportes utilizados eles caminharam por direções variadas. De pinturas a performances, passando por esculturas, desenhos, fotografias, videoarte e site specific, cada autor apresentou à curadoria uma rica gama de pensamentos e propostas, que elencou apenas um exemplar para contextualizar suas respectivas vivências na Fabrica, estabelecendo sempre uma relação entre o espaço usado durante o processo e sua obra final. Bem-vindos aos diversos caminhos da criação.

Ana Carolina Ralston

O gesto e o vazio

Solo Sagrado de Guarapiranga, São Paulo

2019

Nathalia Favaro experimenta algumas formas do mundo por meio do gesto de criação, elaborando, através da cerâmica, uma arquitetura de coisas existentes articuladas no espaço. Permite que a a realidade do objeto se manifeste partindo de um outro ponto de vista, ao mesmo tempo que os apreende desde seu interior. Suas obras evidenciam o olhar para aquilo que pode, muitas vezes, ser imperceptível ou desimportante, como os galhos secos de uma árvores.

 

O gesto de reprodução, impressão, cópia e indício são marcas dos trabalhos reunidos nesta exposição, que transitam pela gravura e a pela cerâmica, transbordando as fronteiras dessas linguagens em obras que ora estão na bidimensionalidade ora na tridimensionalidade. 

O observador poderá experimentar o espaço através dos vazios que são modelados pelos gestos da artista, que revelam as intenções da matéria que constitui as esculturas. É um convite para articular olhares entre superfícies e tensões sensíveis, que vão desde cores impressas que refletem nas retinas até o vazio entre as massas de argila. 

Tais obras apontam para um exercício de percepção, uma vez que o olhar humano é condicionado a um ponto de vista. Há que se purificar o campo da experiência, neutralizando os pressupostos para desenvolver outros sentidos. O vazio, então, abre então inúmeros campos de assimilação. Apreender as formas comuns como reservatórios da pureza, o grau zero, a essência. O pensamento puro que contempla a forma pura.

Fundação Mokiti Okada

Como falar com as árvores

Galeria Z42, Rio de Janeiro

2019

Humanos, não humanos, eu e você, estamos conectados para sempre através dos ventos, das águas e de outras pequenas partículas e microrganismos que operam silenciosamente na paisagem e moldam o mundo. As árvores, majestosamente, regem essa afinada orquestra de entidades vivas e não vivas. São elas as grandes protagonistas da relação entre a biosfera e a atmosfera, estando fundamentalmente ligadas 'a existência de toda a vida no planeta.

Conceber a natureza e o nosso lugar no seu interior como parte constituinte do todo é uma questão eminentemente social e existencial. A crise ambiental e a frequência com que vivenciamos as catástrofes naturais exigem uma outra lógica de conceber, atuar e projetar o mundo. Um projeto de construção social baseado no que Bruno Latour chama de "multiplicação de híbridos", com uma projeção de uma política ecológica igualitária entre humanos e não humanos.

Coexistir, interagir e trocar energia com os seres e com os fenômenos da natureza foram os pontos de partida para o desenvolvimento de trabalhos artísticos aqui apresentados. É a presença do corpo do artista, afetado pela temporalidade e espacialidade da Floresta Amazônica, que é transcrita em um conjunto de processos, matérias e técnicas poéticas, derivadas da participação no programa de imersão artística LABVERDE.

Compreender a linguagem dos organismos, contar suas histórias, é usar a alma para capturar os sinais imperceptíveis aos sentidos. A natureza passa, então a ser interpretada sob a ótica dos seres em um exercício de imaginação empática. Aqui, neste pequeno cosmos da galeria, pessoas são árvores e árvores são peixes, peixes são aves e aves são folhas, folhas são matérias e a ausência delas, tudo faz parte do todo, tudo se dobra em si mesmo em uma teia infinita de encontros. 

Da vontade transgressora de descolonizar a natureza nasce um fio invisível que conecta um grupo de artistas de diferentes partes do mundo. Artistas conscientes de que as árvores sobrevivem muito além de nós, que são testemunhas ocultas das transformações antropogênicas no planeta e que, possivelmente, estarão aqui quando nós já não estivermos. Enquanto ainda há tempo, vamos ouvir, falar e coexistir com as árvores. 

Lilian Fraiji

Mostra Derivações

Ateliê Alê, São Paulo,

Artistas participantes: Angela Quino, Isabel Villalba, Ivanise de Carlo, Roberto Barbosa, Melina Furquim, Nathalia Favaro, Tamara Andrade e Thais Guglielme

2016

O Grupo Peabirú, composto por 'artistas que caminham' e 'caminhantes que trabalham com arte' nasceu de encontros e imersões coordenados pela artista e educadora Edith Derdyk, dentro da plataforma 'Bagagem: caminhada como prática poética'. Desde fevereiro de 2016 o grupo se encontra regularmente, desenvolvendo projetos pessoais e coletivos, investigando territórios e mapeamentos, envolvendo pesquisas, estudos e práticas artísticas.

A mostra DERIVAÇÕES é a primeira 'cartografia dos atravessamentos' decorrente destas experiências, a partir de enunciados que foram sendo propostos no decorrer deste ano de forma horizontal e plural e, aprofundados de forma vertical e singular. Cada artista, aqui, nos oferece um universo de 'pensamentos possíveis', desenvolvidos sobre o ato de caminhar - num arco extenso de possibilidades simbólicas e formais - abrindo chaves para que novas e outras paisagens se instaurem para futuras trilhas, veredas, atalhos e rotas.

 

Edith Derdyk

copyright © Nathalia Favaro 2018